{"id":904,"date":"2019-02-12T22:42:46","date_gmt":"2019-02-12T22:42:46","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=904"},"modified":"2019-02-12T22:46:40","modified_gmt":"2019-02-12T22:46:40","slug":"vida-literaria-vi-literatura-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/vida-literaria-vi-literatura-nacional","title":{"rendered":"Vida Liter\u00e1ria VI \u2013 Literatura Nacional"},"content":{"rendered":"<p>I<\/p>\n<p>Agora, sempre que por a\u00ed se fala de literatura nacional, diz-se que ultimamente h\u00e1 grande desfalecimento entre os escritores brasileiros e que diminui o numero de volumes publicados, e que s\u00f3 se escreve sobre finan\u00e7as e sobre pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 exato. Mas a culpa n\u00e3o \u00e9 dos escritores; \u00e9 das dificuldades que se apresentam hoje em dia para realizar a publica\u00e7\u00e3o de qualquer trabalho. A falecida baronesa de Mamanguape levou os seus timos anos de vida a publicar; na casa Pinheiro, um volume de versos, que nunca veio \u00e0 luz e lhe abreviou naturalmente os dias de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Alu\u00edzio Azevedo, tem h\u00e1 quase ano e meio, um volume de contos a publicar-se na casa Mont\u2019Alverne, hoje Companhia Editora; e, apesar de haver pago adiantado a primeira folha de composi\u00e7\u00e3o, ainda n\u00e3o teve o prazer de ver uma p\u00e1gina impressa do seu livro; outros e outros homens de letras queixam-se de iguais contrariedades, e n\u00e3o \u00e9 natural que algu\u00e9m se disponha a escrever com boa vontade, tendo uma obra encalhada no prelo.<\/p>\n<p>Repetimos: a culpa n\u00e3o \u00e9 de quem escreve; a culpa \u00e9 dos que imprimem. Hoje, no Rio de Janeiro, dar um livro \u00e0 publicidade \u00e9 quase t\u00e3o dif\u00edcil como viver, ou talvez mais ainda, se atendermos ao que por a\u00ed vai pelas tipografias e casas editoras.<\/p>\n<p>\u00c9 que no Rio de Janeiro atualmente, ningu\u00e9m quer trabalhar. A febre do jogo, criada desde o minist\u00e9rio Ouro-Preto e desenvolvida depois pela revolu\u00e7\u00e3o, o desespero de enriquecer forte e rapidamente, o desalento causado pelos graves preju\u00edzos trazidos pelo descalabro de companhias, que eram a grande esperan\u00e7a dos ambiciosos; tudo isso transformou a maior parte da popula\u00e7\u00e3o fluminense num infernal bando de jogatineiros decav\u00e9s, doidos perdidos, furiosos, desanimados, sem vint\u00e9m e sem \u00e2nimo para o mais insignificante trabalho honesto.<\/p>\n<p>Vai-se a uma tipografia para imprimir uma obra. Aparece-nos o dono da casa, triste, desorientado, pensando nas suas tantas mil a\u00e7\u00f5es sem valor, e ouve-nos distraidamente, sem conseguir ligar import\u00e2ncia ao trabalho que lhe encomendamos; e, quando l\u00e1 voltamos, o homem j\u00e1 nem se lembra do que lhe dissemos a primeira vez.<\/p>\n<p>Mas, se apesar de tudo, a encomenda fica feita, por um pre\u00e7o paradoxal, e tornamos l\u00e1 para ver as provas, ai! que triste espet\u00e1culo nos espera! Cada tip\u00f3grafo \u00e9 tamb\u00e9m uma v\u00edtima da bolsa; cada tip\u00f3grafo tem em casa, in\u00fateis como um baralho de bilhetes brancos de loteria, unia infinidade de t\u00edtulos de companhias arrebentadas.<\/p>\n<p>E, macamb\u00fazio, dedos enterrados no cabelo, cotovelos fincados na caixa de composi\u00e7\u00e3o, cada desgra\u00e7ado desses olha sonambulamente para os tipos empastelados, mortos, emudecidos e cobertos de p\u00f3, e n\u00e3o encontra em si coragem para compor um paquet.<\/p>\n<p>Compor! Trabalhar! Para qu\u00ea?\u2026 Para receber uma soldada que, com os pre\u00e7os atuais do p\u00e3o, mal chega para n\u00e3o morrer de fome?\u2026 Ganhar 5$000 por dia, quando, se n\u00e3o rebentasse tal companhia ou banco tal, dever\u00edamos empolgar 300 ou 400 contos?\u2026 N\u00e3o! definitivamente n\u00e3o h\u00e1 valor de homem capaz de ir at\u00e9 l\u00e1!<\/p>\n<p>E o tip\u00f3grafo, convencido de que n\u00e3o vale a pena trabalhar t\u00e3o resignadamente para ganhar t\u00e3o pouco, faz como a maior parte dos oper\u00e1rios, toma o chap\u00e9u, despede-se da casa em que est\u00e1 empregado, e sai de cabe\u00e7a baixa e o cora\u00e7\u00e3o encharcado de desalento; vai pedir dinheiro emprestado a um amigo, ou empenhar alguma joiazinha da mulher, para correr \u00e0 roleta, que nada mais e do que a caricatura da bolsa; a roleta a ultima esperan\u00e7a de lucro r\u00e1pido; a roleta, donde o infeliz nunca mais voltar\u00e1 ao trabalho e \u00e0 dignidade da vida, porque a engrenagem daquela m\u00e1quina infernal jamais largou a presa que lhe caiu nos dentes!<\/p>\n<p>E diz o dono da tipografia, quando o autor vai \u00e0 vig\u00e9sima vez, pelas provas do seu pobre livro:<\/p>\n<p>\u2013 V\u00ea, meu caro senhor?\u2026 Estou sem gente!\u2026 Os oper\u00e1rios foram-se todos! Estou disposto a pagar o duplo do que pagava dantes, mas ningu\u00e9m aparece! E se isto continua assim \u2013 fecho a porta!<\/p>\n<p>E a verdade inteira \u00e9 que este dono de tipografia est\u00e1 morrendo por fazer como fez o tip\u00f3grafo: correr \u00e0 roleta! Correr \u00e0 tavolagem!<\/p>\n<p>E l\u00e1, em volta dos malditos trinta e oito n\u00fameros, de 0O a 36, ou \u00e0 m\u00fasica implac\u00e1vel do Trente et quarente ir\u00e1 ele encontrar como em uma praia de desilus\u00e3o todos esses n\u00e1ufragos da megalomania, arrojadas \u00e0 casa do jogo pelas ondas do oceano da bolsa.<\/p>\n<p>Todos l\u00e1 v\u00e3o ter, desde o assombroso titular at\u00e9 o magro poeta, que interrompeu os estudos, para meter-se no encilhamento. Banqueiros, doutores, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, artistas, caixeiros, todos, todos!<\/p>\n<p>Triste e desconsoladora romaria que s\u00f3 tem uma f\u00e9 \u2013 ganhar. S\u00f3 tem uma esperan\u00e7a \u2013 levar a banca \u00e0 gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Todos e tudo l\u00e1 v\u00e3o ter \u00e0 praia da tavolagem. Sim, meus senhores, aqueles belos carros, aqueles cavalos de ra\u00e7a, aqueles diamantes, tudo isso rolar\u00e1 para sempre na areia e, com os tipos da composi\u00e7\u00e3o e com as p\u00e1ginas, os poetas e prosadores.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Ontem encontrei de novo o meu querido romancista Ernesto Branco. Vinha ainda com o ar enfastiado e, ao ver-me, foi logo me passando o bra\u00e7o pela cintura e levando-me para a confeitaria dos p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>\u2013 Estou furioso contigo! disse me ele, quando nos assentamos, e depois que o gar\u00e7on se afastou para ir buscar uma garrafa de cerveja. \u2013 Furioso, mas o que se pode chamar \u201cFurioso!\u201d.<\/p>\n<p>\u2013 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 Por causa do tal artigo de ontem Li a tua detest\u00e1vel Vida Liter\u00e1ria! Aquilo n\u00e3o se faz! \u00c9 uma inf\u00e2mia!<\/p>\n<p>\u2013 Mas o que fiz eu?<\/p>\n<p>\u2013 Fizeste pilh\u00e9ria com as letras!<\/p>\n<p>\u2013 Ora!<\/p>\n<p>\u2013 Ora n\u00e3o! N\u00e3o admito que se brinque com a cousa mais s\u00e9ria que h\u00e1 no mundo! N\u00e3o admito que se meta a rid\u00edculo a Literatura, a sagrada e imaculada arte de escrever! Sabes tu o que \u00e9 um poeta pobre, meu amigo? sabes quanto \u00e9 vener\u00e1vel essa criatura de sapatos rotos, que s\u00f3 vive da amarga desgra\u00e7a de n\u00e3o ser imbecil ou med\u00edocre, e que vai atravessando cinicamente e corajosamente a dantesca escala de todas as torturas e de todas as mis\u00e9rias, olhos fitos no ideal e p\u00e9 calcado sobre a conven\u00e7\u00e3o burguesa e sobre as conveni\u00eancias sociais?<\/p>\n<p>Sabes tu o que \u00e9 esse sombrio bo\u00eamio que a multid\u00e3o acotovela e que os felizes desdenham e odeiam; esse negro espetro que tem a alma branca e palpitante como as estrelas da manh\u00e3? Esse, que entre toda essa magra canalha que luta inconscientemente para comer e respirar sobre a terra, \u00e9 o \u00fanico que sofre, porque \u00e9 o \u00fanico que tem inteira consci\u00eancia da lama em que se arrasta, com as asas inutilizadas pelo lodo da mis\u00e9ria? esse \u00e9 o poeta, e ao poeta tu ofendeste com as tuas abomin\u00e1veis chufas de cabotin de imprensa! Queres fazer gra\u00e7a? Que diabo! imita o Pierrot ou o Clown; toma as marionetes do governo; enfileira-as defronte de ti, sobre a tua mesa de trabalho, e pinta-lhes bigodes; p\u00f5e-lhes chifres; puxa-lhes pela l\u00edngua at\u00e9 ao umbigo; rasga-lhes a boca at\u00e9 \u00e0s orelhas; prega-lhes rabos de papel; d\u00e1-lhes piparotes no nariz; toma-as entre as palmas da m\u00e3e e boleia-as at\u00e9 reduzi-las a uma grande p\u00edlula; atira com esta ao ar, torna a apanha-la, torna a atira-la; deixa-a cair ao ch\u00e3o; levanta-a com ponta do p\u00e9; atira-lhe outro antes que ela torne a cair; mas, por amor de Deus, por amor de quem mais ames! n\u00e3o fales de carne seca, quando falares de poesia! n\u00e3o exijas versos aos poetas que dormem para n\u00e3o ver o que vai pela Rep\u00fablica! n\u00e3o pe\u00e7as gracejando obra liter\u00e1ria, quando o nosso pa\u00eds geme apunhalado por um salteador pol\u00edtico!<\/p>\n<p>\u2013 Mas, por isso mesmo, respondi eu, esquentando-me tamb\u00e9m. Por isso mesmo que o Brasil chora de dor; por isso que o Brasil \u00e9 tra\u00eddo, \u00e9 saqueado, \u00e9 reduzido a ru\u00ednas, \u00e9 que os poetas deviam erguer-se cheios de indigna\u00e7\u00e3o e arrancar das liras, ao menos para dar com elas na cabe\u00e7a do governo! Tu mesmo, que est\u00e1s a\u00ed a declamar a favor deles; porque n\u00e3o atiras agora ao p\u00fablico um livro patri\u00f3tico, um grito de revolta que fizesse tremer o pal\u00e1cio de Itamarati e gelar nas veias o sangue desses assassinos que acabam de ensang\u00fcentar o Cear\u00e1?<\/p>\n<p>\u2013 Eu? Por uma raz\u00e3o muito simples: porque o talento \u00e9 como os t\u00edtulos da bolsa \u2013 sobe e baixa conforme a procura.<\/p>\n<p>O meu neste momento est\u00e1 muito por baixo. Ainda ontem quis principiar um trabalho: dispus o papel sobre a pasta, enchi o tinteiro, acendi um charuto, assentei-me corajosamente \u00e0 mesa, molhei com energia a pena e\u2026 em vez de escrever, pus-me a pensar\u2026 E em que pensava eu? Pensava em uma carta do meu senhorio que nesse dia me comunicara amavelmente a sua generosa resolu\u00e7\u00e3o de aumentar-me 5O$OOO no aluguel da casa; pensava na minha rnenag\u00eare que me avisara na v\u00e9spera que o dinheiro que eu lhe dou agora para as despesas di\u00e1rias n\u00e3o chega, apesar de ser quase que o duplo do que lhe dava dantes; e pensei nos escandalosos pre\u00e7os que me cobrava agora o alfaiate, e pensei no chapeleiro, e no sapateiro; e, insensivelmente, fui pondo a pena de parte e levantando-me para ir assentar-me \u00e0 janela, a contemplar o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Fez-se noite e eu continuava a pensar em cousas alheias ao meu trabalho. Lembrei-me com m\u00e1goa de um amigo meu, t\u00e3o bom rapaz, t\u00e3o simp\u00e1tico e t\u00e3o bem educado, o Garcia do Amorim, que na v\u00e9spera tinha sido, como muitos outros, devorado pela maldita febre-amarela; lembrei-me de o ter visto quatro dias antes, bom e esperan\u00e7oso, a falar-me de seus versos e de sua pr\u00f3xima viagem a Roma.<\/p>\n<p>Fiquei triste com esta id\u00e9ia, e pus-me ent\u00e3o a cismar no estado e no destino desta pobre terra em que vegetamos, acabrunhados pela peste, pelo calor, pela infernal carestia da vida, amea\u00e7ados a todos os instantes pela guerra civil\u2026 Pobre Rep\u00fablica vi\u00fava! Pobre noiva a quem arrancaram o esposo ainda na lua-de-mel, para entreg\u00e1-la \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, para entreg\u00e1-la \u00e0 torpe sensualidade da maruja! Ah! maldito Floriano! maldita ra\u00e7a de traidores!<\/p>\n<p>E de todos esses negros pensamentos ficou-me no esp\u00edrito uma surda amargura, uma funda e dura tristeza, um vago desejo de desertar desta infeliz p\u00e1tria, correndo \u00e0 procura de um lugar onde se respire um ar menos assassino, onde a vida n\u00e3o seja t\u00e3o amarga e t\u00e3o tenebrosa, onde se n\u00e3o vejam cair tantas v\u00edtimas da peste e onde se n\u00e3o encontrem pelas praias cad\u00e1veres boiando misteriosamente. E uma dor imensa, terr\u00edvel, sem esperan\u00e7as de rem\u00e9dio, apoderou-se de mim e fez-me amaldi\u00e7oar a hora em que vim ao mundo. Imagina se trabalhei!<\/p>\n<p>\u2013 E por que n\u00e3o aproveitaste a tua pr\u00f3pria dor para fazer uma obra? Por que n\u00e3o fizeste da tua dor um poema?<\/p>\n<p>\u2013 Porque era verdadeira demais para isso! Desconfia das l\u00e1grimas descritas em prosa e verso. A dor leg\u00edtima \u00e9 ego\u00edsta, \u00e9 besta, \u00e9 in\u00fatil, n\u00e3o serve sen\u00e3o para doer! A arte nasceu para cantar e n\u00e3o para chorar!<\/p>\n<p>Ia replicar, metendo as botas no governo, mas o meu amigo cortou-me a palavra, segredando-me rapidamente:<\/p>\n<p>\u2013 Caia-te! Esse sujeito que se assentou agora atr\u00e1s de ti \u00e9 um espi\u00e3o de pol\u00edcia\u2026 Cuidado!<\/p>\n<p>Embucbei.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Agora, sempre que por a\u00ed se fala de literatura nacional, diz-se que ultimamente h\u00e1 grande desfalecimento entre os escritores brasileiros e que diminui o numero de volumes publicados, e que s\u00f3 se escreve sobre&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[17],"class_list":["post-904","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-aluisio-azevedo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/904","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=904"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/904\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":915,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/904\/revisions\/915"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=904"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=904"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=904"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}