{"id":905,"date":"2019-02-12T22:41:35","date_gmt":"2019-02-12T22:41:35","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=905"},"modified":"2019-02-12T22:46:40","modified_gmt":"2019-02-12T22:46:40","slug":"vida-literaria-v-do-vendeiro-ao-poeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/vida-literaria-v-do-vendeiro-ao-poeta","title":{"rendered":"Vida Liter\u00e1ria V \u2013 Do Vendeiro ao Poeta"},"content":{"rendered":"<p>I<\/p>\n<p>Meu Deus! como o Rio de Janeiro ainda est\u00e1 longe de ser uma cidade art\u00edstica e principalmente um centro liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nas grandes capitais do velho mundo civilizado a primeira camada social \u00e9 formada pelos homens de esp\u00edrito, pelos s\u00e1bios, pelos homens de letras, pelos artistas de talento, pelos investigadores e reformadores cient\u00edficos, pelos exploradores not\u00e1veis; depois seguem-se os pol\u00edticos em evid\u00eancia, os estadistas de pulso e os militares distintos pelo saber profissional, pela honra e pela coragem; depois os grandes funcion\u00e1rios jur\u00eddicos; depois os homens da alta ind\u00fastria, os que movem grandes massas de oper\u00e1rios; depois os banqueiros milion\u00e1rios; depois os grandes agricultores; depois v\u00eam os artistas auxiliares, os cortes\u00e3os de merecimento, os reprodutores dos quadros vitoriosos, os propagadores da ci\u00eancia e das letras, os peritos executores da boa m\u00fasica, os cantores, os gravadores, os tip\u00f3grafos, os atores de g\u00eanero ligeiro; enfim, todo esse mundo de habilidosos, que s\u00e3o incapazes de criar, mas que servem de ve\u00edculo \u00e0 grande obra dos artistas criadores; e afinal, em \u00faltimo plano, chega a vez dos mercadores, isto \u00e9, daqueles que, por falta de talento para conceber e por falta de t\u00e9cnica para executar ou reproduzir qualquer trabalho cient\u00edfico ou art\u00edstico, limitam-se a servir de intermedi\u00e1rios entre a ci\u00eancia, a arte e a ind\u00fastria e entre o p\u00fablico que o consome.<\/p>\n<p>Esta \u00faltima camada social constitui o com\u00e9rcio, em grosso e a retalho. Na Inglaterra, na Alemanha, na It\u00e1lia, e na R\u00fassia, as portas da boa sociedade lhe s\u00e3o vedadas escrupulosamente.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a, depois que se democratizou, limita-se a empurr\u00e1-la para o fim da ordem social, e, se lhe n\u00e3o fecha as portas da alta sociedade, faz pior: despreza-a, trata-a com desd\u00e9m e at\u00e9 com repugn\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Em Fran\u00e7a, hoje essa classe s\u00f3 serve para fornecer sogros ricos e noivas com bom dote.<\/p>\n<p>\u00c9 que a Fran\u00e7a v\u00ea no comerciante o homem que nada produz e mais lucra; o homem que vive exclusivamente para a gan\u00e2ncia e para a especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E o negociante, com efeito, ao mesmo tempo que \u00e9 o intermedi\u00e1rio entre o produtor e o consumidor, \u00e9 o feroz parasita do homem de ci\u00eancia, do homem de letras, do artista e do inventor industrial.<\/p>\n<p>Estes quase sempre acabam pobres, e o negociante acaba rico, rico e s\u00e3o, porque durante toda a sua vida de lucros nunca fez o menor esfor\u00e7o intelectual e por conseguinte nunca se gastou nervosamente. Em toda a extensa classe social o negociante \u00e9 o \u00fanico que n\u00e3o trabalha.<\/p>\n<p>A sociedade d\u00e1-lhe o direito de viver sem produzir, comprando por dois para vender por dois e meio; mas o negociante abusa sempre desse direito, comprando por dois e vendendo por quatro quando n\u00e3o vende por seis ou por oito. A consci\u00eancia do com\u00e9rcio e muito el\u00e1stica quando se trata de neg\u00f3cios, porque faz parte dos principais requisitos do seu of\u00edcio enganar o comprador. E tanto assim \u00e9, que eles inventaram para uso pr\u00e1tico, prov\u00e9rbios da ordem filos\u00f3fica deste: \u201cAmigos, amigos \u2013 neg\u00f3cios \u00e0 parte\u201d.<\/p>\n<p>Efetivamente, entre os negociantes n\u00e3o se respeita a amizade, nem se observam certos deveres de consci\u00eancia quando se trata de vender. Uma vez recebi de certa fam\u00edlia do interior, a quem devo obriga\u00e7\u00f5es, o pedido de comprar aqui uma d\u00fazia de certos len\u00e7os especiais de cambraia de linho que ent\u00e3o estavam em grande moda e custavam bastante caro.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o entendo de fazendas e n\u00e3o queria servir mal a quem me fez a encomenda, dirigi-me a certo dono de armarinho, que eu conhecia de muito tempo e a quem tinha na conta de homem s\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o podias cair melhor! disse-me ele, quando lhe expus o que me levava \u00e0 sua casa. N\u00e3o encontrarias em outra parte fazenda como a que tenho no g\u00eanero que precisas. \u00c9 o que h\u00e1 de melhor, vais ver!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o preciso ver, porque, j\u00e1 disse, n\u00e3o entendo da mat\u00e9ria. Uma vez me afian\u00e7as que tens o que procuro, \u00e9 quanto basta.<\/p>\n<p>Ele embrulhou os len\u00e7os, paguei e sa\u00ed.<\/p>\n<p>Da\u00ed a alguns passos encontro outro negociante meu amigo.<\/p>\n<p>Paramos a conversar um instante e contei-lhe a compra que fizera, dizendo que supunha aviar bem a encomenda recebida.<\/p>\n<p>Ele pediu para ver os len\u00e7os, observou-os um instante e segredou-me:<\/p>\n<p>\u2013 Foste enganado\u2026 Isto n\u00e3o \u00e9 cambraia de linho. Se queres servir bem a fam\u00edlia que te encomendou os len\u00e7os, n\u00e3o lhe mandes estes, vai \u00e0 casa do Leite (e ensinou-me onde era) que \u00e9 o \u00fanico no mercado que possui hoje dessa fazenda. E tive de ir eu de novo comprar os len\u00e7os, pagando tamb\u00e9m quanto paguei pelos primeiros.<\/p>\n<p>E agora digam-me com franqueza: Fui ou n\u00e3o fui roubado?<\/p>\n<p>E se com efeito fui; se o dono do primeiro armarinho \u00e9 um tratante, porque motivo hei de eu trat\u00e1-lo com mais considera\u00e7\u00e3o do que aos outros gatunos, menos velhacos e que mais se exp\u00f5em, desses que roubam um queijo \u00e0 porta de uma venda?\u2026<\/p>\n<p>Esses ao menos s\u00e3o mais sinceros e arriscam a dormir na cadeia.<\/p>\n<p>Os negociantes, em geral, s\u00e3o como o amigo que me vendeu os len\u00e7os falsos; unicamente, eles l\u00e1 na sua alta filosofia comercial entendem que n\u00e3o praticam ato desonesto quando nos impingem gato por lebre.<\/p>\n<p>Concordo que assim vivam; concordo que enganem o fregu\u00eas sempre que possam; concordo que enrique\u00e7am, sem jamais produzir, concordo que o livreiro seja rico e que o autor que mais o enriqueceu morra de fome; concordo que o empres\u00e1rio de teatro tenha milh\u00f5es, enquanto os artistas que trabalham para ele, escrevendo com\u00e9dias, representando os pap\u00e9is, fazendo m\u00fasica, pintando cenografia, n\u00e3o tenham onde cair mortos; concordo que o especulador engorde e que o produtor entisique e estoure de esgotamento nervoso a for\u00e7a de trabalhar; mas com um milh\u00e3o de raios! n\u00e3o queiram que o parasita ignorante e sem escr\u00fapulo venha colocar-se ao lado do artista de talento, do escritor de esp\u00edrito, do homem de ci\u00eancia ou do soldado de honra.<\/p>\n<p>Dois proveitos n\u00e3o cabem no mesmo saco! As cocotes n\u00e3o sofrem as provoca\u00e7\u00f5es da mulher honesta, mas tamb\u00e9m n\u00e3o gozam das regalias que esta goza!<\/p>\n<p>Pois bem: para se calcular com justi\u00e7a do nosso estado de civiliza\u00e7\u00e3o e cultivo intelectual, basta lembrar-nos de que aqui a escala social acha-se rigorosamente invertida.<\/p>\n<p>Aqui, a primeira camada \u00e9 feita pela classe comercial, e a \u00faltima pelos homens de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Rompe a marcha na ordem social, em primeiro plano, o glorioso e brutal comendador, o vendeiro com o seu ventre de monstro, a sua indecorosa fortuna e a sua obscena estupidez.<\/p>\n<p>E quando precisamos alugar ~a casa, diz-nos o propriet\u00e1rio:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o alugo sem carta de fian\u00e7a de vendeiro ou negociante matriculado.<\/p>\n<p>N\u00e3o! Definitivamente o Brasil poder\u00e1 ser um pa\u00eds civilizado, enquanto a grande revolu\u00e7\u00e3o, a verdadeira, a \u00fanica, n\u00e3o o tomar pelas duas extremidades e sacudi-lo violentamente, at\u00e9 deslocar todas as camadas sociais e obriga-las a tomar o lugar que lhes compete.<\/p>\n<p>Antes disso, n\u00e3o passar\u00e1 esta terra de um grande porto comercial, onde os estrangeiros aventurosos v\u00eam procurar fortuna r\u00e1pida.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Come\u00e7o a convencer-me de que esta se\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem raz\u00e3o de ser e n\u00e3o devia existir, porque infelizmente a vida liter\u00e1ria de hoje no Brasil \u00e9 uma cousa t\u00e3o hipot\u00e9tica como a vida elegante na costa d\u2019\u00c1frica.<\/p>\n<p>Dantes surgia ainda um livro de vez em quando; vinha \u00e0 tona, de longe em longe, um volume de versos ou de contos; mas agora, valha-me Deus! n\u00e3o aparece com que dar \u00e0 gente uma hora de regalo ao apetite de letras p\u00e1trias.<\/p>\n<p>E no entanto, o que dantes inspirava versos aos poetas, e o que dantes fornecia aos romancistas cap\u00edtulos de enredo ou p\u00e1ginas de observa\u00e7\u00e3o, continua por a\u00ed afora, inalteravelmente, enchendo a vida de cousas bonitas, de cousas tristes e de cousas her\u00f3icas.<\/p>\n<p>O amor, o grande manancial onde os l\u00edricos e os rom\u00e2nticos abeberaram por longos s\u00e9culos as suas musas, n\u00e3o nos consta que fosse tamb\u00e9m deposto, antes pelo contr\u00e1rio parece que se tem desenvolvido ultimamente e que hoje \u00e9 o \u00fanico que n\u00e3o morre de fome no Brasil.<\/p>\n<p>Eva continua, como Jesus Cristo, a atravessar as gera\u00e7\u00f5es de bra\u00e7os abertos, \u00e0 espera dos aflitos que precisam de consolo e que se queiram abrigar na religi\u00e3o da ternura e do carinho. As flores, ao que me consta, nada perderam da integridade do seu perfume primitivo e as rosas continuam a ser belas e os l\u00edrios a ser c\u00e2ndidos que faz gosto. Os lagos e os vales, afogados de verdura, perseveram em ter-se misteriosos e as brisas n\u00e3o deixaram ainda de ciciar depois que o Sr. Floriano tomou conta da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Segundo as minhas observa\u00e7\u00f5es, o azul do c\u00e9u n\u00e3o desbotou e est\u00e1 novinho em folha como sa\u00edsse da f\u00e1brica; as estrelas s\u00e3o inalteravelmente as mesmas; e eu seria capaz de apostar que os sabi\u00e1s cantam tal qual como no bom tempo de Gon\u00e7alves Das, e que as roas n\u00e3o s\u00e3o menos leg\u00edtimas e gemebundas que as do falecido Casimiro de Abreu.<\/p>\n<p>Por que pois acabaram-se os poetas? Se h\u00e1 azul de c\u00e9u, se h\u00e1 crep\u00fasculos, e h\u00e1 lua, como pois n\u00e3o h\u00e1 versos?<\/p>\n<p>Como diabo n\u00e3o h\u00e1 versos e poetas, havendo tudo aquilo e, o que \u00e9 mais, o soberbo e inestim\u00e1vel elemento da fome, da fome e da mis\u00e9ria?<\/p>\n<p>Os senhores sabem quanto vale a fome para os poetas!\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o sei que mais desejam, os exigentes!<\/p>\n<p>Boa lua, m\u00e1goas de primeira ordem, estrelas a discri\u00e7\u00e3o, um ditador sanguin\u00e1rio no poder, que \u00e9 uma tet\u00e9ia; mulheres que s\u00f3 desejam ser cantadas e decantadas; l\u00e1grimas e luto por toda a parte, do que se pode desejar de melhor; uma \u00f3tima peste desoladora, um belo sol de rachar, uma falta absoluta de resid\u00eancias, e, por cima de tudo isso, que j\u00e1 \u00e9 muito, a carne seca a 1$200 o quilo!<\/p>\n<p>Pois mesmo assim, com todas essas vantagens, incr\u00edvel! os senhores poetas conservam-se na moita e \u2013 nem pio! nem um verso!<\/p>\n<p>Os romancistas e os contistas e novelistas, pelo eu lado, tamb\u00e9m n\u00e3o sei do que se possam queixar. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 Portelas para desvi\u00e1-los do trabalho liter\u00e1rio; o governo da legalidade fornece-lhes por dia assassinatos e tenebrosas persegui\u00e7\u00f5es, que d\u00e3o para uma enfiada de volumes; os conspiradores esfervilham de todos os lados; h\u00e1 no ar gritos de agonia e fartum de sangue; rosna-se a respeito de fuzilamentos e cabe\u00e7as cortadas e assaltos a m\u00e3o armada; um tesouro!<\/p>\n<p>E os romancistas \u2013 moita!<\/p>\n<p>Pelo teatro a mesma cousa: as revolu\u00e7\u00f5es sucedem-se; os chefes pol\u00edticos lutam como atletas; os estados transformam-se em campos de batalha; a peste e a fome, de m\u00e3os dadas, invadem a casa do pobre e promovem cenas de grande sensa\u00e7\u00e3o. E, no entanto, n\u00e3o aparece um dramazinho, uma trag\u00e9dia, e nem sequer uma com\u00e9dia em um ato, apesar de que o elemento c\u00f4mico n\u00e3o abunda menos que o dram\u00e1tico, se dermos cr\u00e9dito ao vizinho da Vida fluminense que conhece muita gente engra\u00e7ada e capaz de provocar as maiores pilh\u00e9rias e as mais largas gargalhadas.<\/p>\n<p>Os Melos, por exemplo! Como aqueles dois gaiatos irm\u00e3os est\u00e3o a pedir por amor de Deus que os ponham em cena, de c\u00f3coras, um defronte do outro, a torcerem-se de patriotismo! E que belo efeito n\u00e3o faria o Floriano de guarda ao tesouro, como o descreveu Pierrot, de espingarda ao ombro e vela de sebo ao lado? E o batalh\u00e3o patri\u00f3tico a gingar na frente da m\u00fasica? E a manifesta\u00e7\u00e3o popular, obrigada a bal\u00f5ezinhos chineses e descompostura \u00e0s folhas da oposi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Oh! definitivamente, n\u00e3o vejo raz\u00f5es para n\u00e3o haver com\u00e9dias, dramas, romances e poemas!<\/p>\n<p>Se os Srs. literatos n\u00e3o aproveitarem esta boa ocasi\u00e3o, se n\u00e3o aproveitarem enquanto Br\u00e1s \u00e9 tesoureiro do Estado do Rio de Janeiro, nunca mais pilhar\u00e3o outra t\u00e3o boa.<\/p>\n<p>E \u00e9 pena, porque o momento hist\u00f3rico que atravessamos, devia passar \u00e0 hist\u00f3ria, cantado em prosa e verso, para gozo e regalo dos futuros brasileiros.<\/p>\n<p>Um Floriano n\u00e3o se bispa duas vezes no mesmo s\u00e9culo!<\/p>\n<p>Vamos, coragem, meus senhores! m\u00e3os \u00e0 obra, que a literatura brasileira precisa, para a sua gl\u00f3ria, de ter tamb\u00e9m, como a literatura italiana, o seu Bertoldinho e o seu Cacasseno.<\/p>\n<p>V\u00e1 o pa\u00eds \u00e0 garra, mas salvem-se as letras, com um milh\u00e3o de raios!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Meu Deus! como o Rio de Janeiro ainda est\u00e1 longe de ser uma cidade art\u00edstica e principalmente um centro liter\u00e1rio. 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