{"id":906,"date":"2019-02-12T22:41:13","date_gmt":"2019-02-12T22:41:13","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=906"},"modified":"2019-02-12T22:46:40","modified_gmt":"2019-02-12T22:46:40","slug":"vida-literaria-iv-gasparoni","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/vida-literaria-iv-gasparoni","title":{"rendered":"Vida Liter\u00e1ria IV \u2013 Gasparoni"},"content":{"rendered":"<p>Ora, at\u00e9 que afinal apareceu um livro de literatura amena. \u00c9 o primeiro que surge depois que O Combate existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">CONTOS DE UM DILETTANTI<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">por Alexandre Gasparoni<\/p>\n<p>Seja benvindo!<\/p>\n<p>O autor \u00e9 um bom rapaz, simp\u00e1tico e honesto; inteligente e trabalhador, que, em vez de dar as suas horas de descanso \u00e0 p\u00e2ndega ou \u00e0 pregui\u00e7a, entendeu de aproveit\u00e1-las escrevendo contos para diversas folhas; e agora, depois de reuni-las em volume, oferece-os ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>Como declara logo no pr\u00f3logo, o Sr. Gasparoni n\u00e3o tem pretens\u00f5es art\u00edsticas e n\u00e3o tem filia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Faz contos, como o Sr. Taunay faz m\u00fasica e como o espirituoso escritor Fran\u00e7a J\u00fanior fazia pintura, por gosto, para matar o tempo e divertir os amigos.<\/p>\n<p>Nada mais natural e mais de direito. Eu, por\u00e9m, \u00e9 que n\u00e3o vou com semelhante sistema. A arte \u00e9 cousa muito s\u00e9ria e respeit\u00e1vel para ser cultivada assim, nas horas vagas, descansando de outros trabalhos.<\/p>\n<p>A vida inteira de um artista \u00e9 muito pouco ainda para a sua obra. Na arte, seja literatura, m\u00fasica, pintura ou estatu\u00e1ria, n\u00e3o h\u00e1 meios termos \u2013 ou \u00e9 arte ou n\u00e3o \u00e9 arte!<\/p>\n<p>Se \u00e9 arte pertence ao p\u00fablico, pertence \u00e0 na\u00e7\u00e3o, pertence ao mundo, se n\u00e3o \u00e9 arte pertence ao dono ou dona da prenda, e n\u00e3o deve sair de casa do autor; deve ficar na sala de visitas, sobre os consolos, entre os bibelots e os bordados da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Se \u00e9 arte, pertence \u00e0 cr\u00edtica que a julgar\u00e1, sem nunca tirar nem p\u00f4r do seu merecimento. Forte, ela atravessar\u00e1 os s\u00e9culos, marcando eternamente na hist\u00f3ria a \u00e9poca em que veio ao mundo; fraca, morrer\u00e1 logo ao nascer, desconhecida de todos e esquecida at\u00e9 pelo pr\u00f3prio autor.<\/p>\n<p>A arte \u00e9 honesta e s\u00f3 se entrega a quem a ama mediante rigoroso casamento. N\u00e3o quer amantes passageiros. \u00c9 ego\u00edsta e cruel: n\u00e3o admite que o seu id\u00f3latra volva uni s\u00f3 momento os olhos para outro ideal; quer que ele se d\u00ea todo inteiro, todo de corpo, todo de alma; quer beber-lhe a exist\u00eancia, gota a gota, instante a instante, at\u00e9 deix\u00e1-lo totalmente vazio, seco, inutilizado para todas as outras aspira\u00e7\u00f5es da vida.<\/p>\n<p>O artista n\u00e3o vive: o artista trabalha. O artista n\u00e3o descansa: o artista pensa. Deitado, passeando, comendo, enquanto as m\u00e3os deixaram o pincel, ou o escopro ou a pena, o pensamento continua a executar a obra interrompida.<\/p>\n<p>Dormindo, ele trabalha ainda. N\u00e3o \u00e9 raro v\u00ea-lo levantar-se ao meio da noite, no meio do sono, e, esquecido da mulher que tem ao lado na cama, ir, como um son\u00e2mbulo, acender a vela e correr ao seu quadro, ou \u00e0 sua est\u00e1tua, ou ao seu poema, para modificar uma linha ou corrigir uma frase.<\/p>\n<p>A obra concebida nestas condi\u00e7\u00f5es, o filho leg\u00edtimo dessa uni\u00e3o indissol\u00favel do artista com n sua arte estremecida, n\u00e3o pede desculpas quando aparece, nem aparece ao p\u00fablico enquanto n\u00e3o se sente capaz de impor a sua passagem.<\/p>\n<p>A arte nunca deve pedir; deve sempre surgir de p\u00e9, armada e pronta, altiva, superior, e seguir tranq\u00fcilamente o seu destino, sem olhar para tr\u00e1s, nem para os lados, nem para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Como, por conseguinte, aceitar, no pr\u00f3logo de um livro de contos, esta confiss\u00e3o do autor: \u201cSou apenas um dilettanti\u201d o que quer dizer: \u201cn\u00e3o sou um artista; n\u00e3o sou um escritor\u201d?<\/p>\n<p>Mas, valha-me Deus! se n\u00e3o \u00e9 escritor, n\u00e3o escreva! Se n\u00e3o \u00e9 pintor, n\u00e3o pinte! Se n\u00e3o \u00e9 flautista, para que se mete a tocar flauta fora de casa, em concertos p\u00fablicos?<\/p>\n<p>Isto faz-me lembrar certos quadros que \u00e0s vezes se exp\u00f5em por a\u00ed com esta declara\u00e7\u00e3o por baixo: \u201cO autor n\u00e3o aprendeu desenho!\u201d<\/p>\n<p>Como se fosse preciso semelhante declara\u00e7\u00e3o, quando o quadro a\u00ed est\u00e1 para n\u00e3o deixar d\u00favidas a esse respeito.<\/p>\n<p>E, no entanto, a declara\u00e7\u00e3o mais necess\u00e1ria n\u00e3o a faz o autor, explicando por que diabo \u00e9 que ele pinta e exp\u00f5e quadros, tendo consci\u00eancia de que n\u00e3o est\u00e1 habilitado para isso.<\/p>\n<p>Mas o Sr. Gasparoni, apesar de pregar por debaixo do seu quadro um letreiro em que declara n\u00e3o passar de simples dilettanti despretensioso e sem preocupa\u00e7\u00e3o de escolas liter\u00e1rias, diz-nos tamb\u00e9m que, para escrever, se inspirou \u201cna encantadora simplicidade de linguagem destes tr\u00eas mestres da literatura francesa: Alfonse Daudet, Guy de Maupassant e Paul Bourget\u201d.<\/p>\n<p>E\u2019 caso para dizer: Bem lembrado! Unicamente conv\u00e9m notar que a chamada simplicidade desses tr\u00eas escritores parisienses, que nada t\u00eam de comum com as nossas letras, \u00e9 resultado de muita arte, de muito esfor\u00e7o e de longos anos de trabalho e de estudo.<\/p>\n<p>Qualquer desses tr\u00eas artistas para alcan\u00e7ar essa bela simplicidade sedutora, de que fala o Sr. Gasparoni, deu em troca, durante uma vida de calceta, tudo o que de melhor possu\u00edam: a sua for\u00e7a cerebral e a sua for\u00e7a f\u00edsica. Daudet est\u00e1 moribundo em conseq\u00fc\u00eancia de esgotamento nervoso, e Maupassant est\u00e1 perdido e louco para sempre; de Bourget nada me consta por enquanto, mas n\u00e3o dou muito pela integridade dos seus m\u00fasculos e dos seus nervos.<\/p>\n<p>Tome cuidado o Sr. Gasparoni e mude de mestres enquanto \u00e9 tempo! Al\u00e9m de que, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de pedir esmolas \u00e0 literatura francesa, tendo a quem recorrer na pr\u00f3pria, e at\u00e9 aqui mesmo, em nossa querida p\u00e1tria. Volva o Sr. Gasparoni as vistas para Machado de Assis, para L\u00facio de Mendon\u00e7a, para Raul Pomp\u00e9ia, para Artur Azevedo e para os nossos outros bons narradores de contos e me dir\u00e1 se o engano!<\/p>\n<p>E \u00e9 isso principalmente o que n\u00e3o perd\u00f4o ao estim\u00e1vel autor dos Contos de um dilettanti, \u00e9 a sua pretens\u00e3o de ser disc\u00edpulo daqueles tr\u00eas escritores franceses. N\u00e3o perd\u00f4o, porque al\u00e9m de tudo, n\u00e3o \u00e9 verdade. O seu livro, onde figuram mulatinhas parafinas, das que gostam de ser beliscadas na festa da Gl\u00f3ria, e de primos Jojocas, nenhum parentesco tem com a doentia, preciosa e amorfinada literatura parisiense; o seu livro \u00e9 um netinho franzino dos nossos velhos e engra\u00e7ados escritores; descendo do Pena, do Mace do, do Fran\u00e7a J\u00fanior, e um pouco tamb\u00e9m do diletantismo alegre e burgu\u00eas de Ferreira de Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>Que isso que fica dito n\u00e3o seja traduzido por m\u00e1 vontade contra o autor; que sirva antes para lhe chamar o apetite de trabalhar forte e rijo nas letras, porque no seu livro h\u00e1 revela\u00e7\u00f5es de bons qualidades, que, uma vez cultivadas a s\u00e9rio, podem desabrochar em trabalho de arte.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 com o maior prazer que um belo dia, falando de Alexandre Gasparoni, em vez de \u201cBom rapaz\u201d, tenha eu que dizer \u201cBom escritor\u201d.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio e a bolsa perder\u00e3o um dos seus agentes mais esperan\u00e7osos, mas as letras p\u00e1trias rejubilar\u00e3o de gozo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ora, at\u00e9 que afinal apareceu um livro de literatura amena. \u00c9 o primeiro que surge depois que O Combate existe. 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