{"id":907,"date":"2019-02-12T22:40:42","date_gmt":"2019-02-12T22:40:42","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=907"},"modified":"2019-02-12T22:46:40","modified_gmt":"2019-02-12T22:46:40","slug":"vida-literaria-iii-um-fruto-da-epoca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/vida-literaria-iii-um-fruto-da-epoca","title":{"rendered":"Vida Liter\u00e1ria III \u2013 Um Fruto da \u00c9poca"},"content":{"rendered":"<p>Ontem, quando sa\u00ed do trabalho, para ir tomar o aperitivo do costume antes do jantar, dou com o nosso querido escritor, o Ernesto Branco, que eu n\u00e3o via h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>\u2013 Ol\u00e1! exclamei. Bons ares te restituam \u00e0 rua do Ouvidor. Como vai isso, poeta? Que tens feito? Qual \u00e9 agora o teu livro? Qual \u00e9 o teu novo amor?<\/p>\n<p>Ernesto respondeu-me a tudo isso com um gesto seco, acompanhado de um triste sorriso, que at\u00e9 ent\u00e3o nunca lhe vira nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>E notei que a sua inteligente fisionomia perdera a primitiva express\u00e3o de alegre coragem, e parecia agora fechada sobre um surdo desgosto, desses que nos acabrunham, n\u00e3o pela viol\u00eancia da dor, mas pela pungente convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a de rem\u00e9dio para eles.<\/p>\n<p>\u2013 Que tens? perguntei-lhe, encarando-o. Parece-me doente.<\/p>\n<p>\u2013 T\u00e9dio, murmurou o meu amigo, fechando por um instante os olhos e levando lentamente o charuto \u00e0 boca.<\/p>\n<p>\u2013 Tomaste j\u00e1 o teu vermouth?<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 n\u00e3o tomo vermouth<\/p>\n<p>\u2013 Tomar\u00e1s hoje. Vem da\u00ed.<\/p>\n<p>Subimos at\u00e9 ao largo de S. Francisco e fomos ter \u00e0quela confeitaria onde h\u00e1 um viveiro de passarinhos.<\/p>\n<p>Uma vez instalados ao canto mais sombrio do botequim, disse-nos Ernesto enquanto o servente esperava as nossas ordens:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o bebas vermouth franc\u00eas. Li numa revista m\u00e9dica muito s\u00e9ria, que essa detest\u00e1vel bebida \u00e9 de todos os ve\u00edculos alco\u00f3licos o mais r\u00e1pido para chegar \u00e0 morte ou ao delirium tremens. Depois dele \u00e9 que est\u00e1 classificado o ilustre absinto, e em terceiro lugar o piperment.<\/p>\n<p>\u2013 Pois tomemos uma passagem de segunda classe. Gar\u00e7\u00e3o, dois absintos!<\/p>\n<p>\u2013 Com goma?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! com \u00e1gua e gelo. Para que ado\u00e7ar os meios de morte?\u2026<\/p>\n<p>E, voltando-me de todo para o meu amigo, atirei-lhe misteriosamente a nova pergunta a respeito do que ele fazia nesse momento. Era imposs\u00edvel que Ernesto, o fecundo trabalhador das letras brasileiras, n\u00e3o tivesse em m\u00e3o um novo livro. Quem sabe mesmo se n\u00e3o seria o excesso de trabalho o que lhe dera ao semblante aquele ar de fadiga e aborrecimento ?\u2026 Escrever com arte \u00e9 cousa t\u00e3o penosa e acabrunhante!\u2026 E eu sabia perfeitamente que Ernesto era desses artistas que, quanto mais produzem, melhor e mais acabado querem produzir; desses que, ao terminar uma obra, pensam logo em principiar outra, porque aquela lhes parece ainda incompleta e falhada. Qual seria, pois, a minha desilus\u00e3o, qual seria o meu desgosto, notando que Ernesto, em vez de responder ao sincero interesse da minha pergunta de admirador e de amigo, deixara pender a cabe\u00e7a e olhava vagamente para o seu copo?<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o?! insisti. E\u2019 segredo?! Fala-me do teu novo livro! Dize-me o que est\u00e1s escrevendo agora\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Nada\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Nada ?! Ora essa! Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o vale a pena!<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 injusto! \u00d3 ingrato! Pois tu, o \u00fanico homem de letras que ultimamente no Brasil tem ganho dinheiro\u2026 tu, que tens leitores certos; que tens editores para tudo o que escreves; tu, \u00f3 felizardo! tens a coragem de falar desse modo\u2026. Vai para o diabo que te carregue! N\u00e3o sei que queres tu ent\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1s enganado\u2026 \u2013 replicou-me Ernesto sem se alterar. Est\u00e1s muito enganado a meu respeito. Eu tinha com efeito tr\u00eas leitores, mas um abandonou-me para entregar de corpo e alma ao jogo da bolsa e agora s\u00f3 pensa em salvar-se do naufr\u00e1gio em que o lan\u00e7aram; o outro deixou-me pela pol\u00edtica e, perseguido pelo governo atual, s\u00f3 pensa em salvar da fome a mulher e os filhos e em livrar do cutelo da legalidade a pr\u00f3pria cabe\u00e7a amea\u00e7ada. Bem v\u00eas que quem tem a pensar em cousas t\u00e3o preciosas \u2013 o dinheiro e a vida, \u2013 n\u00e3o se pode dar ao luxo de ler os meus livros.<\/p>\n<p>\u2013 E o terceiro?<\/p>\n<p>\u2013 Ah! com o terceiro n\u00e3o conto; n\u00e3o contei nunca para p\u00f4r o livro no prelo ou a panela no fogo.<\/p>\n<p>O terceiro \u00e9 o meu colega, \u00e9 o literato, \u00e9 o jornalista, \u00e9 o cr\u00edtico; \u00e9 o leitor que foi muito meu amigo enquanto as minhas obras nada rendiam, e que come\u00e7ou a dar-me bordoada de cego, desde que a cousa cheirou a sucesso de livraria.<\/p>\n<p>N\u00e3o o amaldi\u00e7oa; devo-lhe talvez mesmo a coragem triunfante com que trabalhei durante de anos; devo-lhe a convic\u00e7\u00e3o do meu valor e da minha energia, agora apagados; devo-lhe o cuidado crescente com que fui caprichando mais e mais toda a nova obra que eu produzia; mas n\u00e3o estou disposto a escrever s\u00f3 para ele, por uma raz\u00e3o muito simples, porque esse leitor n\u00e3o paga!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! bradei eu com uru murro na mesa. N\u00e3o tens raz\u00e3o. Ou te esvaziaste o teu saco, meu rapaz, ou foste invadido pela pregui\u00e7a! Os teus paradoxos s\u00e3o desculpas de cabo de esquadra! Dize-me que te esgotaste, e nada protestarei, mas\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! Creio que n\u00e3o me esgotei, porque preciso empregar verdadeira viol\u00eancia para n\u00e3o continuar a escrever. Mas trabalhar para qu\u00ea? por qu\u00ea? para quem? em que l\u00edngua? Nesta que falamos? Mas isso \u00e9 escrever para a fam\u00edlia; isto \u00e9 o mesmo que falar para dentro de um garraf\u00e3o vazio? E\u2019 rid\u00edculo escrever na l\u00edngua portuguesa!<\/p>\n<p>\u2013 Uma bela l\u00edngua!<\/p>\n<p>\u2013 Qual hist\u00f3ria! Uma l\u00edngua incompleta e dific\u00edlima; uma l\u00edngua sem prest\u00edgio, sem utilidade, sem vocabul\u00e1rio t\u00e9cnico para a ci\u00eancia e para as cousas da vida moderna; unia l\u00edngua que nem sequer tem ortografia, porque n\u00e3o tem ainda um dicion\u00e1rio definitivo; uma l\u00edngua t\u00e3o mesquinha, que n\u00e3o tem palavras de tratamento. \u2013 O homem \u00e9 senhor, a mulher \u00e9 senhoira, e acabou-se! Demoiselle, Miss, Senhorita n\u00e3o t\u00eam tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas. Uma l\u00edngua em que \u00e9 preciso errar, quando se n\u00e3o quer ser afetado na linguagem, porque n\u00e3o se h\u00e1 de fazer os personagens tratarem-se por v\u00f3s, quando o que se usa \u00e9 voc\u00ea. Voc\u00ea \u00e9 g\u00edria, \u00e9 uma asneira que n\u00e3o existe autorizada por l\u00edngua nenhuma do mundo!<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o de Vossa Merc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 tal! Vossa Merc\u00ea \u00e9 um tratamento respeitoso, e eu n\u00e3o posso perguntar a urna senhora a quem falo pela primeira vez: \u201cVoc\u00ea como vai?\u201d o Usted espanhol, sim, \u00e9 que pode ser usado e corresponde em respeito e legalidade ao desusado e in\u00fatil Vossa Merc\u00ea da l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! Pode-se perfeitamente falar ou escrever a boa l\u00edngua portuguesa sem errar.<\/p>\n<p>\u2013 Sem afeta\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica \u00e9 imposs\u00edvel. Diz-me a gram\u00e1tica que o imperativo consta de \u201cFaze tu; fazei v\u00f3s; e eu digo todos os dias ao meu criado: \u201cFa\u00e7a isto: fa\u00e7a aquilo\u201d. Um horror! Pois eu posso l\u00e1 continuar a escrever em semelhante l\u00edngua?\u2026 Maldita a hora em que n\u00f4-la impingiram os donos dela, A l\u00edngua portuguesa foi um presente grego!<\/p>\n<p>\u2013 Ningu\u00e9m pode negar que \u00e9 um idioma elegante\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Elegante e limpo: A barba que se usa por debaixo do queixo chama-se \u201cPassa-piolho\u201d. A nostalgia da p\u00e1tria chama-se \u201cMorrinha galega\u201d.<\/p>\n<p>O Ant\u00f4nio Castilho para dizer numa p\u00e1gina que, no lugar descrito por ele, havia grande n\u00famero de raparigas, exprimiu-se assim: \u201chavia mo\u00e7ame \u00e0 tripa forra\u201d\u2026 Que eleg\u00e2ncia! Que distin\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o concordo contigo.<\/p>\n<p>\u2013 Pois n\u00e3o concordes. Ainda n\u00e3o h\u00e1 muito tempo, o Azeredo Coutinho, fazendo a tradu\u00e7\u00e3o de uma com\u00e9dia francesa, viu-se em s\u00e9rios embara\u00e7os, para dizer em portugu\u00eas um di\u00e1logo travado entre dois personagens de sexo diferente, porque os dois n\u00e3o deviam, nem podiam tratar\u2013se por tu, mas tamb\u00e9m n\u00e3o deviam tratar-se por senhor, que \u00e9 tratamento muito cerimonioso; e como n\u00e3o existe ou n\u00e3o se usa em portugu\u00eas o tratamento de v\u00f3s, o nobre tradutor, para n\u00e3o abandonar a sua obra, teve de fazer, sabes o teve de dar um t\u00edtulo a cada um dos dois personagens, a mulher fez baronesa, e ao homem conde, para que eles pudessem conversar do seguinte modo, sem se tratarem por tu, nem por senhor: \u201cA Baronesa \u00e9 cruel\u201d, \u201cN\u00e3o diga isso, Conde\u201d, \u201cA Baronesa n\u00e3o quer ouvir-me, mas eu hei de fazer-me ouvir pela Baronesa\u2026\u201d, \u201cOh, o Conde n\u00e3o tem raz\u00e3o, mas eu perd\u00f4o o Conde\u201d. Delicioso! Mas ainda assim, prefiro que os senhores tradutores v\u00e3o imitando Portugal na farta distribui\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos, ruas n\u00e3o imitem os atuais escritores portugueses que, apertados como o Azeredo na dificuldade do tratamento, recorreram ao passivo si, fazendo-o concordar com a pessoa com quem se fala; de sorte que, escritas por esses mestres aquelas frases citadas, ficariam assim: \u201cA Baronesa n\u00e3o quer ouvir-me, ruas eu hei de fazer-me ouvir por si\u201d, \u201cO Conde n\u00e3o tem raz\u00e3o, mas eu perd\u00f4o a si\u201d. Ah, bandidos! E queres tu, meu amigo, que eu escreva em semelhante l\u00edngua, e para semelhante p\u00fablico de imbecis?!\u2026 N\u00e3o! antes uma boa morte!<\/p>\n<p>E Ernesto, com a resolu\u00e7\u00e3o de um suicida, gritou para o mo\u00e7o do botequim:<\/p>\n<p>\u2013 Gar\u00e7on! traz um expresso de segunda ordem, bem carregado, bem forte, bem r\u00e1pido, que me atire o mais depressa poss\u00edvel ao outro inundo! Ao menos l\u00e1 hei de falar alguma l\u00edngua que n\u00e3o seja a do padre Sena Freitas!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem, quando sa\u00ed do trabalho, para ir tomar o aperitivo do costume antes do jantar, dou com o nosso querido escritor, o Ernesto Branco, que eu n\u00e3o via h\u00e1 muito tempo. \u2013 Ol\u00e1! exclamei. 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